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26/07/2020 | Kanucha Barbosa

Um dia de cada vez

Tudo Lifestyle História

Em sua coluna de estreia no iLove.e, a jornalista Kanucha Barbosa reflete sobre a flexibilização da quarentena: depois de tanto tempo em isolamento, para muitos, o mundo se tornou um lugar assustador, enquanto a casa, um refúgio seguro. Como lidar com esses medos para retomar à vida “real”?

Ao me sentar pela primeira vez no sofá da minha atual terapeuta, anos atrás, a frase que saiu da minha boca quando ela pediu para que eu me apresentasse foi: “Tenho muitos medos”. Hoje, sei que não falaria isso. Provavelmente começaria com: “Sou mãe de um menino de 1 ano”. Isso porque, entre tantas outras coisas, a maternidade me trouxe um lembrete que aparece todos os dias por aqui, como um pop-up em meu navegador, e que tem me ajudado a entender melhor meus tais medos: “não temos 100% de controle sobre nada”. E é justamente do medo e do controle que decidi falar nesta minha primeira coluna para o Ilovee. 

Há algumas semanas, quem mora em São Paulo está passando por um processo muito pessoal em relação à reabertura da cidade. Muito pessoal mesmo, porque cada um está encarando essa fase da pandemia de uma maneira diferente. Para aqueles que sempre foram obrigados a trabalhar e não tiveram a escolha de ficar em casa, o retorno talvez esteja menos abrupto, já que enfrentaram seus medos lá no início, muitos de uma maneira cruel, sem apoio emocional algum. Para outros, que tiverem o privilégio de se refugiarem em casa em diferentes graus, é outra experiência.  

Eu pertenço ao segundo grupo. Passei por esses meses com certo distanciamento social e por fases em que não achava seguro nem mesmo ir ao supermercado. Quando o comércio reabriu, os shoppings abriram suas portas, depois os salões, restaurantes, bares e até os parques, a dúvida tomou conta de mim. Na verdade, depois de tanto tempo sem muito contato com o mundo exterior, o “fora de casa” havia se tornado um lugar assustador, inseguro

Estamos perdidos em relação à pandemia. Ao mesmo tempo em que ouvimos notícias das dezenas de milhares de mortes no país, lemos que São Paulo está entrando em uma fase mais otimista, vemos imagens de pessoas curtindo as férias de verão em países que atravessaram um período difícil, mas que são bem diferentes do Brasil — ou seja, não temos certeza de nada, muito menos controle.

Para entender melhor sobre tudo isso, pouco antes de começar este texto, conversei com Carolina Parreira (@oka_saude), naturóloga que trabalha com Análise Transacional, uma linha da psicologia. Ela contou que, com a pandemia, muitos sofreram mais ainda com a sensação de perda de controle e o medo da morte, o que resultou no crescimento de problemas como pânico, insônia, ansiedade, compulsões de todos os tipos — por comida, álcool, drogas, compras. 

Segundo Carolina, estamos em um ponto de partida muito parecido com o começo do surto da Covid-19, onde não temos muita certeza do que vai acontecer daqui em diante — e isso nos faz temer. Ela, então, explica que podemos buscar uma dose equilibrada de medo na vida. Sim, pois ele é um mecanismo de preservação e quem o anula completamente pode colocar a própria vida ou a de outros em risco. No entanto, seu excesso nos atrapalha a experimentar, arriscar, avançar e crescer enquanto sociedade. 

Para evitar um choque térmico, algumas pessoas não podem mergulhar de cabeça em águas muito geladas — é nessa parte do corpo que está a maior quantidade de receptores de temperatura na pele. O aconselhável é que elas entrem primeiro com os pés. E talvez, para muitos de nós, agora seja um momento em que possamos sentir a temperatura primeiro na pontinha dos dedos antes de se jogar de uma vez.

Temos que seguir novas regras e nos adaptar a outra realidade. Devemos ter paciência com o outro, respeitá-lo, pois cada um vai ter o seu tempo nessa jornada. A sugestão de Carolina é que a gente cuide um pouco mais da gente, não apenas de nossos corpos, o que já é muito importante, mas de nossas mentes, tentando entender quem somos e o que vamos compartilhar com o mundo. Não, não temos 100% de controle, mas podemos, sim, decidir quem a gente vai ser daqui em diante.   

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