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24/08/2020 | Kanucha Barbosa

Sobre a nossa rotina

Tudo Lifestyle História

Desde que o Francisco nasceu, há 1 ano e 3 meses, minha rotina já mudou algumas vezes de acordo com a evolução dele. Por aqui, nos primeiros meses eram tantas novidades que, muitas vezes, nem sabia que dia da semana era.

Aos 4 meses, veio a consultora do sono, que me apresentou uma tabela do sono infantil (um guia sobre a quantidade de horas de sono/sonecas necessárias para um bebê conforme sua idade). Isso me ajudou bastante, Francisco é hoje um bebê que, no geral, dorme bem. No entanto, confesso que por muito tempo, me tornei escrava da rotina engessada, condicionada a pensar que ele só dormiria bem se seguisse uma imaculada sequência de atividades

Acontece que os bebês, assim como nós, adultos, não são robôs — e acho que demorei quase um ano para aceitar isso, a um custo bem alto. No verão passado, por exemplo, fomos para a casa de praia dos meus sogros. Com uns 8 meses, Francisco parecia estar vendo as coisas pela primeira vez, seus olhinhos viviam bem atentos e alegres. Os priminhos, o mar, a areia, o parquinho... Tudo ali era uma novidade incrível. E isso impactou diretamente em seu sono. 

“Mamãe, eu não quero fechar os olhos agora, porque quero ficar admirando essa árvore bonita, e aqueles passarinhos, e aquelas crianças correndo, e esse barco azul”, ele devia estar pensando enquanto eu cultivava bolhas nos pés de tanto andar pelo condomínio, tentando fazê-lo adormecer no carrinho no horário da religiosa soneca. 

“Ka, é assim mesmo, ele não está seguindo a rotina, não está dormindo bem, mas está vivendo novas experiências, isso é enriquecedor”, me falavam. Eu até tentava respirar fundo e aceitar, ver o lado bom, mas aquilo me trazia uma série de ansiedades e frustrações, além do medo dele se transformar em um bebê insone. 

Depois da viagem, Francisco passou janeiro inteiro acordando quatro, cinco vezes por noite. Hoje sei que não foi por causa da praia, ele estava passando por mudanças muito significativas na vidinha dele. Eu não conseguia enxergar isso e me culpava por tê-lo tirado do apartamento. Então, para tentar retomar nossos dias regrados, passei a ficar muito mais em casa, a recusar convites, a deixar de visitar familiares e amigos.

Fiquei completamente exausta física e mentalmente. E, quando disse em voz alta ao meu marido que havia chegado ao meu limite da privação de sono, numa sexta-feira de fevereiro, Francisco dormiu direto das 19h às 5h da manhã. Dias depois, ele estava engatinhando. Dali, meu filho passou a dormir melhor, mas continuamos seguindo sua rotininha ferrenhamente. Aí veio a pandemia, e ter um dia regrado ficou mais fácil, pois éramos só nós três em casa. 

Eventualmente, lá fomos nós para a casa da praia de novo, pois meu marido havia marcado férias que coincidiram com a quarentena. Que privilégio poder sair do apartamento em segurança, ver o mar e, por algum tempo, deixar de lado o caos que o mundo todo está vivendo. Mas a história se repetiu. Francisco não dormia, pois queria ver tudo. Eu ficava em desespero por causa da quebra da rotina e deixei passar o quanto aquela oportunidade poderia me fazer bem. Pior, deixei passar o quanto meu filho estava ganhando com aquela liberdade. 

Para a minha surpresa, assim que retornamos a São Paulo, ele voltou a dormir como antes, sem acordar tantas vezes e tirando sua habitual sonequinha gostosa  pós-almoço. E é claro que, por não ser um robô, ele tem seus dias (ou noites) difíceis. Nesta semana, por exemplo, resolveu que quer acordar todos os dias às 5h30 da manhã. 

Quando se fala em filhos, cada família tem seu jeito inteiramente particular de criar. Existem similaridades, mas ninguém está numa caixa específica. Aqui em casa, admito que entrei num espiral obsessivo por certas questões, o que não considero 100% negativo, que fique claro (gosto de ter horários, já que isso torna as coisas mais fáceis na maior parte do tempo). No entanto, é importante desconstruir premissas, é importante ser espontâneo e nem preciso dizer que é importante dar valor às coisas certas.

Voltamos mais algumas vezes à praia depois da flexibilização. Ainda é um desafio ter uma atitude despreocupada em relação aos horários dele, mas com certeza passamos juntos por um processo de desapego. Eu e ele. Dormir três horas por noite é difícil? Sim, demais. Mas ver seu filho brincar na areia e apontar para todos os lados maravilhado tem uma beleza indescritível.

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