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21/09/2020 | Kanucha Barbosa

Sobre a ideia de que é preciso sofrer para aprender

Tudo Lifestyle História

Na infância, passava quase todas as férias de verão na casa da minha avó materna, no interior do Mato Grosso. Sempre éramos em quatro netos: eu, minha irmã e mais um casal de primos. Em um desses anos de aconchego, natureza e exploração, meu primo mais velho nos reuniu no quintal com uma revista Veja embaixo dos braços. Ele nos pediu para examinar a capa, olhar com atenção a imagem que ela trazia. Não me lembro do assunto em si, mas me recordo nitidamente da ilustração. O desenho de duas estradas que se originavam em uma bifurcação, a da direita era limpa e bonita, cercada de flores e mato verdinho, com uma luz amarelo quente. A da esquerda remetia a trevas, cheia de galhos secos e espinhos, sombria e escura. No fim, os caminhos se encontravam e davam no topo de uma montanha majestosa. 

“A partir de agora, vamos ter que escolher entre essas duas estradas quando estivermos andando por aí, a mais fácil e a mais difícil. A cheia de borboletinhas é para os fracos, a das trevas é para os fortes. Mas, não quero saber de vocês escolherem a primeira, hein? Ninguém é fracote aqui!”, ele disse. 

Uma de nossas atividades preferidas nessas férias na minha avó era caminhar “perigosamente” pelas fazendas e sítios vizinhos, até achar alguma cachoeira escondida. A gente pulava as cercas e saía andando pelos terrenos, explorando e torcendo para não sermos pegos. Meu primo era o líder das expedições e eu, a segunda mais velha, sempre ficava pra trás e muitas vezes era chamada de tartaruga. Se havia uma ponte segura para atravessar um riacho e a alternativa era molhar as pernas e ir pelas pedras, eu escolhia a ponte, enquanto os outros três vencedores iam pelo caminho difícil. Confesso que aquilo sempre me deixou um tanto triste, como se eu realmente fosse uma medrosa ou preguiçosa, e que estaria perdendo aquele jogo imaginário .

Tenho revisitado bastante essa memória nos últimos tempos, principalmente neste ano difícil que estamos atravessando. A cada dia que passa, me convenço que muito do que a gente enfrenta depende de como a gente encara. Às vezes, na vida, a gente escolhe o caminho mais difícil mesmo inconscientemente. E isso pode até nos tornar mais fortes, menos suscetíveis a erros, mas também pode ser desnecessário.

Na semana passada, meu filho pegou um resfriado e eu fiquei bem aflita. Fui correndo fazer um teste para ter certeza que não era Covid e passei algumas noites em claro, mesmo quando Francisco conseguia dormir com o narizinho congestionado. Novamente, cheguei a um pico de exaustão, enquanto meu marido tentava me dizer que, com o resultado negativo de coronavírus, realmente não deveríamos nos preocupar tanto por ele estar resfriado, já que crianças ficam assim o tempo todo.  

Não estou dizendo que, como num passe de mágica, a gente consegue escolher o caminho mais colorido. Não é nada fácil virar uma chave e ter uma atitude leve em relação aos problemas que a gente enfrenta. Mas talvez seja importante tentarmos enxergar o topo da montanha como um objetivo inevitável, e que chegar lá pode ser um pouco mais fácil ou um pouco mais difícil. Quem sabe, com esforço, a gente consegue escolher o caminho vencedor. Ah! E não, o caminho dos fortes, na maior parte do tempo, não é o cheio de espinhos, já que é preciso muita força e sensibilidade para enfrentar até as coisas mais pesadas com certa beleza. 

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