X

Tudo o que você mais ama

Assine para receber muitas novidades,
promos, dicas e achados do fantástico
universo online. E claro,
tudo isso com muita inspiração.

29/06/2020 | Juliana Cunha

Previsões do mundo pós-pandemia: em quanto tempo vamos vê-las?

Tudo Moda Lifestyle História

Uma busca no Google por “mundo pós-pandemia” rende diversos resultados ligados à previsão de tendências. Este link do El País, por exemplo, aponta “revisão de valores, minimalismo, reconfiguração nos espaços de comércio, novos modelos para restaurantes, imersão cultural, trabalho remoto, moradias próximas ao trabalho, shopstreaming, busca por novos conhecimentos e educação à distância”.  Primeiramente, vale distinguir que há itens práticos — como o trabalho remoto e a educação à distância —e outros mais ligados ao campo das ideias, como o minimalismo e a revisão de valores.

Com transformações latentes em termos de comportamento, economia e sociedade, nos vemos ávidos por respostas mágicas para grandes questionamentos sobre como viveremos daqui para frente. Se por um lado há os fatos, e aposto que você provavelmente transformou a maneira como consome nos últimos meses, por outro há também uma sede por uma realidade que não é imediata. Vamos aos dados : uma pesquisa com mil pessoas feita pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (Sbvc) mostrou que 61% dos clientes que compraram online durante a quarentena aumentaram o volume de compras devido ao isolamento social. Ainda segundo os dados, em 46% dos casos esse aumento foi superior a 50%. 

Dos dados para as vaticinas de um mundo pós-covid é um pulo: um estudo da consultoria McKinsey de maio deste ano, por exemplo, aponta que valores como “consciência ao consumir” e “conexão afetiva” irão pautar o comportamento do consumidor. No mesmo sentido, um post da Peclers Paris traz insights sobre mudanças que as marcas devem aplicar para o momento a seguir, como “diminuir o ritmo de criação para ter menos coleções” e “investir na comunidade”. Desse mundaréu de prenúncios, um questionamento surge: como estimar um futuro que não se sabe quando vai acontecer? Para começar a responder, talvez seja perspicaz começarmos do início: quais os processos da previsão de tendências?

Quem responde é a especialista em macrotendências pelo bureau Peclers Paris, Iza Dezon: “O inconsciente coletivo, um conceito de Carl Jung, evoca conexões mundiais que geram a mesma vontade em lugares e conceitos diferentes. O trabalho de um pesquisador de tendências é mapear, identificar, peneirar e se inspirar nesses fenômenos interligados para ir além”, decodifica ela.

O lado B da interpretação das previsões

Sustentabilidade, consumo consciente, fim do consumismo desenfreado: há muitos estudos, mas a real palpabilidade dessas ideias segue em aberto. “A pergunta é muito mais ‘em quanto tempo as pessoas estão dispostas a mudar seus comportamentos?’ e ‘em quanto tempo o medo causado pela pandemia vai ser significativo o suficiente para transformar?’. A previsão de tendências nada mais é do que trazer à tona as possibilidades. Otimistamente, posso dizer que em dez anos veremos transformações mais concretas”, palpita Iza Dezon. 

A colocação de Dezon traz um senso de realidade, especialmente em um momento que vemos fenômenos como o revenge spending, uma espécie de tentativa de retornar à normalidade com compras desenfreadas, que expressam o desejo de liberdade reprimido. Ganhou destaque o caso da reabertura de uma loja Hermès em Guangzhou, no sul da China, em meados de abril. A unidade em questão faturou o equivalente a US$ 2.7 milhões em vendas no primeiro dia de funcionamento depois da contenção do vírus. Quanto a esse exemplo, Dezon é categórica: “A Hermès indica um tipo de comportamento que nem existe no Brasil, e usar esse caso como exemplo é muito simplista, porque descontextualiza algo que é muito específico, um luxo zero ostensivo que não pode ser equiparado”. 

Especialista em gestão de comunicação e marketing, principalmente no segmento de luxo, Gabriella Negromonte acrescenta que esse fenômeno, além da especificidade da marca, envolve também uma questão cultural do povo, já que a Ásia é um grande player no mercado de luxo: “As classes A e B no Brasil terão essa fome de consumo, viagem, compra. Mas precisamos entender a realidade da maioria, e a maioria não tem recursos para levar esse estilo de vida”, aponta. 

Afinal, é impossível dissociar do assunto consumo a taxa de informalidade no mercado de trabalho calculada em 40,6% no trimestre encerrado em fevereiro de 2020, somando 38 milhões de trabalhadores informais, conforme dados divulgados em 31 de março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com um salário mínimo de R$1.045, o brasileiro tem rendimento médio real habitual de R$ 2.375.

Na mesma linha, a pesquisadora da Peclers adiciona que o ato de compensar o desejo reprimido está associado aos novos ricos, e “todo país que tem uma população com novos ricos vai ter o revenge spending com o retorno ao consumo. Vale lembrar que o mercado de consumo não tem compradores únicos, e cada target terá um comportamento.”

Ela  complementa com os tipos de público: “Tem uma categoria de consumidores que interconecta diretamente a sua identidade com a sua imagem, que precisa de símbolos marcadores de pertencimento. Depois, tem um grupo de consumo mais consciente, que não para de consumir, mas quer mais satisfação nesse ato, então se preocupa com as origens. E depois, tem um grupo mais radical, que vai efetivamente transformar seu consumo em nome dos valores que acredita.”

“A grande virada de chave que estamos tendo agora é realmente entender nosso poder enquanto consumidor. Temos mudanças exponenciais como aulas online, happy hour por videochamada, que são impactantes”, continua Iza, trazendo à luz tendências mais concretas. Gabriella Negromonte concorda. “O contato físico sempre vai ser importante, mas nunca mais seremos os mesmos, com o ritmo de trabalho presencial. Estamos em processo de entendimento, reeducação e adaptação, mas essa é uma realidade que veio para ficar.”

Em destaque

assine nossa newsletter

Voltar ao topo Voltar ao topo