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09/11/2020 | Kanucha Barbosa

Coluna da Kanucha: você também se reconectou com a natureza?

Tudo Lifestyle História

Quando fecho os olhos e tento encontrar alguma memória gostosa de 2020, sinto um pouco de frustração, como tanta gente. Procurando um pouco mais, penso na última vez que estive na praia, no mês passado. Estávamos nos arrumando para voltar para casa e, por algum motivo desconhecido, tive uma brecha entre juntar as coisas do bebê e fechar as malas, e consegui dar uma última volta na praia, sozinha. E ela estava vazia, não havia alma viva além de mim. Que coisa rara de se encontrar. 

Coloquei meus pés na água, senti as ondinhas geladas e me sentei na areia para observar a paisagem. O dia estava lindo, o mar, maravilhoso. Peguei meu celular e dei play em uma das minhas músicas preferidas, Mystery of Love, de Sufjan Stevens, do filme Me Chame Pelo Seu Nome. Fiquei ali por um tempo, apenas olhando e escutando.  

Apesar de frequentar essa mesma praia há anos, nunca tinha vivido um momento como esse. Sempre que ia para lá, ficava embaixo do guarda-sol para não queimar o rosto e mal entrava no mar. Além disso, um detalhe deste relato diz muita coisa para mim: antigamente, minha primeira reação seria fazer algumas fotos para os stories, em vez de me conectar de verdade com o momento.  

Neste ano de pandemia, vivemos mais entre paredes, entre concreto, sem acesso livre ao sol ou ao céu. Nas primeiras semanas, lá em março, o máximo que eu e meu marido fazíamos era descer até a quadra de tênis do prédio e dar voltas de carrinho com meu filho. Com o tempo, passamos a caminhar pelo bairro uma hora por dia. Aquela hora, no sol ou na garoa, foi tão preciosa. Moro perto de um grande parque de São Paulo e confesso que, inúmeras vezes, andei de carrinho circundando seus muros só para espiar as árvores e sonhar com o dia em que aqueles portões iriam se abrir. E, quando enfim se abriram, colocar os pés na grama me trouxe alívio. Talvez, nunca nesta vida eu iria perceber o valor disso tudo. 

No geral, não gosto da premissa de tirar coisas boas de tragédias. Não gosto, quando alguém querido morre, de falar sobre o quanto devo dar mais valor a minha vida. Não acho que seja sobre mim. Hoje, se tivesse que decidir se haveria ou não uma pandemia, sem pensar duas vezes eu diria “não”. Não, pois tantos perderam a vida. Não, pois milhões passaram e estão passando por experiências em que enfrentam seus medos e ansiedades de uma maneira cruel. No entanto, penso que sem ela, meu relacionamento com a natureza não teria mudado. 

Ver o mar e as montanhas sempre foi algo especial para mim. Mas tudo isso nunca teve um sabor de urgência. Era como se eu estivesse andando em círculos, no piloto automático, e nunca percebesse que as ferramentas que me ajudam a chegar perto da paz que tanto procuro sempre estiveram ao meu dispor. 

A natureza nos ajuda olhar para dentro. E nunca precisamos tanto olhar para dentro. Dela, somos guardiões. Me contrariando um pouco e tirando algo de bom deste ano, agradeço por poder estar perto de cada árvore, folha verde ou grama fresca, mesmo que numa ilha dentro da cidade. Com meu filho, vou aprender como ser mais gentil com a natureza, coisa que minha geração peca. Todos os dias, vou tentar abrir os olhos e enxergar sua beleza, lembrando da época em que nada disso era possível. 

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