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07/12/2020 | Kanucha Barbosa

Coluna da Kanucha: uma tarefa para o fim do ano

Tudo Lifestyle História

Cresci com o pensamento de que pessoas ansiosas são aquelas que não conseguem esperar. Talvez alguém agitado, que briga para chegar logo a vez no jogo de tabuleiro, buzina no trânsito ou agita as pernas quando o almoço demora para chegar. 

Sempre me considerei uma pessoa tranquila. Por ter a lua em capricórnio, sou também prática, não demoro horas para entregar um texto, nem para escolher uma roupa na loja. Se a comida atrasa no restaurante, eu não brigo, tento respirar fundo, bebo um drink e como a entradinha, toda feliz.

Neste ano tão desafiador, milhões de pessoas lutaram contra a ansiedade. Em 2020, compreendi que o significado desta palavra é bem diferente. Hoje, entendo que ansiedade é criar cenários futuros caóticos em nossas mentes e sofrer, se angustiar e até adoecer por isso. 

Na maioria das vezes, esses cenários caóticos não irão acontecer, mas o ansioso sofre como se ele já estivesse consolidado e, por isso, tem sintomas que se assemelham aos do enfrentamento real deste caos. Quer um exemplo?

Se tenho uma apresentação importante no trabalho, tudo vai dar errado. A internet vai falhar, meu computador vai travar, meu chefe vai estar em um dia ruim e não prestará atenção, o material vai estar cheio de erros de português (por mais que eu tenha checado mil vezes) e vou fazer papel de boba diante dos meus colegas. Quando rolar cortes na empresa por causa da crise financeira, existe uma grande chance de eu estar na lista dos demitidos, porque a tal apresentação vai ser uma grande m*. Enquanto prevejo essa catástrofe, meu coração se acelera, meu estômago embrulha, minhas mãos suam e minha cabeça dói. 

Radical? Talvez, sim… Mas o ansioso vai longe. Ele prevê obsessivamente o mundo acabando, em poucos segundos. E ele parece alguém ansioso? Pode ser que sim, mas pode ser que não. Pode ser que ele guarde esses pensamentos lá dentro e não os compartilhe com ninguém. Pode ser que aquela pessoa mais zen que você conheça tenha pensamentos apocalípticos o tempo todo, e não consiga externalizá-los.

No entanto, um dia a conta pode chegar. Como uma panela de pressão, que finalmente explode e espalha aquele caos por todos os lados. E posso dizer com toda propriedade que esse dia não é nada bom. Uma crise de ansiedade é dolorida, desesperadora e aterrorizante. 

Depois dela, a gente tem alguns caminhos a seguir. Pode juntar os pedacinhos embaixo do tapete e seguir a vida normalmente, acumulando mais até chegar a próxima; ou pode se tratar com um especialista (se for o caso) e realmente sentir uma melhora. Há alguns anos, passei por isso e escolhi um mix dos dois cenários. Tomei remédios por algum tempo, parei por conta própria e não fiz mais nada, deixei a vida me levar. 

Aí chegou o bebê. E depois chegou a pandemia. Não há ser humano forte o bastante para aguentar esse tranco como se nada estivesse acontecendo. Resumo da ópera? A conta chegou para mim, de novo.

Não gostaria de me alongar muito falando sobre o valor desta conta, mas gostaria de dizer que, neste caso, o desvio de rota foi algo bom. Porque desta vez eu resolvi tentar contornar esse problema de uma forma mais consciente.

Diante do caos, percebi que a saúde emocional e mental têm o mesmo peso da saúde física, principalmente quando estamos enfrentando algo tão difícil como esta pandemia. Se você quebra um braço, você vai ao PS e o engessa. Toma remédios, se trata e fica bem. Por que não fazer isso quando algo afeta nossa mente?

Para mim, além de um tratamento acompanhado por um profissional, a reação mais vantajosa que eu comecei a ter em relação à ansiedade foi viver mais o presente. Sim, parece muito simples falar isso, mas viver o presente é dificílimo para um ansioso. Viver o aqui e o agora significa observar as previsões caóticas do futuro e deixá-las irem embora, como nuvens que passam pelo céu. É respirar fundo quando elas chegam perto e focar no momento real, no palpável, no que está de fato acontecendo. 

Mesmo que você não se considere muito ansioso, neste fim de ano, te proponho uma coisa: viva o presente. O Natal e o Réveillon não serão como você planejou? Você está com medo desta doença que teima em não ir embora? Está triste no trabalho? Use aquele tempinho que você tem de manhã, antes de acordar para o mundo, para enumerar as coisas reais e boas que estão acontecendo com você. Você abriu os olhos, isso já é uma enorme conquista.

 

Sinta seu corpo, alongue-se, se mexa. O seu corpo é real. Mora com os pais? Abrace-os, eles são reais. Mora com os filhos? Nem vou te dizer o que fazer, né? Mora sozinho? Aproveite a si mesmo, sua própria companhia: você é real. Tome um café da manhã sem olhar o celular ou a TV, seu pão francês e sua caneca de café com leite são reais - e muito saborosos. Tente não criar muitos “e se” na sua cabeça. Deixe as coisas acontecerem em seu curso, fazendo o que você considera ser o melhor. 

Não temos controle sobre o futuro, mas podemos aproveitar o presente, podemos tocá-lo, podemos sentir seu cheiro, podemos nos aconchegar nele e vivê-lo de uma maneira mais serena e agradável. Vamos?

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