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30/01/2021 | Kanucha Barbosa

Coluna da Kanucha: o ato de amar nossos corpos é uma batalha perdida?

Tudo Lifestyle História

Ah, o verão... O que um dia gostoso de sol e mar não faz com a gente? O calor levanta o astral, faz a vida passar devagar e traz mais leveza. No entanto, é no verão que outros sentimentos também são despertados em mim, não tão bons assim. Usar biquíni e mostrar mais a pele sempre afetam minha autoestima e, principalmente, minha autoimagem.

Nasci nos anos 80, então, minhas primeiras referências de corpos ideais foram as Barbies, seguidas pelas Spice Girls, estrelas de capas da Capricho e pela Britney Spears. Quando eu era criança, a gordofobia era aberta e incentivada, chamar o amiguinho de baleia era considerado normal, portanto, eu não deveria ser uma menina gordinha. Na adolescência, a regra para qualquer garota era “odeie seu corpo”, ditada por uma indústria que falava que você até poderia amá-lo, mas apenas se emagrecesse. 

Seguindo a regra, comecei a odiar o meu corpo muito cedo, quando ainda era uma criança. Odiava minhas canelas finas, meus braços não definidos e minha barriga flácida. Passava o recreio inteiro sentada nas arquibancadas da quadra de esportes trocando receitas de dietas milagrosas com minhas amigas, que também odiavam os corpos delas. 

Na faculdade, comecei a relaxar um pouco mais, talvez por conviver com amigas que também estavam cansadas de conversar sobre dietas ou magreza. Eu ainda achava que o corpo ideal era o magérrimo, mas já não fazia tanto esforço pra chegar lá. De vez em quando até entrava numa academia ou fazia compras de itens “lights”, mas era só isso. 

Lá pelos 30, alguma coisa mudou. A Bela Gil apareceu por aí ensinando sobre comida saudável e natural, Michelle Obama e Chimamanda Adichie escreveram sobre representatividade, o movimento feminista ofereceu novamente ao mundo ferramentas para que a gente tenha uma concepção diferente sobre amor próprio, bem longe da construção macabra de um padrão ideal de beleza opressor e cruel. E muita coisa melhorou dentro de mim. Mas não totalmente. 

Voltando ao verão, quando me vejo de biquíni hoje, aos 35 anos, tento me convencer de todas as maneiras que o meu corpo é bonito. Minhas canelas, por exemplo, me proporcionam viajar pelo mundo, e meus braços são primordiais para que eu escreva e me expresse. Minha barriga? Minha barriga acolheu a coisa mais especial deste mundo, Francisco. Meu corpo gerou meu filho. É injusto odiá-lo.  

É nos dias de verão que costumo pensar que o ato de realmente amar meu corpo é uma batalha perdida. Como é que eu vou apagar da cabeça as imagens de barrigas saradas e pernas torneadas quando me olho no espelho e não vejo nada disso? 

Tenho consciência de que o bonito não é necessariamente o magro. Acho muitas mulheres que não são consideradas magras lindas de morrer. Além disso, nunca estive tão conectada com meu corpo. Em vez de optar por uma dieta light, hoje eu prefiro comer cada vez menos industrializados e mais alimentos naturais. Em vez de me matar na musculação (que é algo que não gosto de fazer), faço aulas de yoga que me trazem sensações de prazer e conexão com cada parte de mim. Mesmo assim, ainda quero emagrecer. 

A sensação é de estou jogando o Mario Bros da autoaceitação, alcancei uma fase avançada, mas não consigo passar dela. Parece que falta uma ferramenta para destravar o caminho. 

Organizando as ideias e pensando nas táticas usadas até aqui, acho que estou na direção certa. Sigo me incentivando a ser gentil com meu corpo e olhando mais para lugares e pessoas que me trazem uma ideia real sobre amor e cuidado. Vou torcendo, para, um dia, virar este jogo e viver o verão como ele realmente deveria ser vivido: com o prazer de mostrar um corpo lindo e saudável — o meu.

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