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06/08/2020 | Olívia Nicoletti

Coluna da Oli: quando a gente muda por dentro, é preciso mudar por fora?

Tudo Beleza História

Tem uma imagem que passa em looping dentro da minha cabeça desde que eu era criança que é bonita demais: minha mãe passando maquiagem, perfume e penteando os cabelos toda vez que ia sair para jantar com o meu pai e amigos. Dela, o que mais me marcou foram o barulho da escova e o cheiro que emanava dos fios brilhantes e longuíssimos. 

Minha mãe sempre usou o cabelo comprido e até hoje é dessas pessoas que sofrem para cortar só as pontinhas. Naturalmente, eu e as minhas irmãs crescemos com a ideia fixa de que cabelo bonito é cabelo comprido e fim.

Quando vim morar em São Paulo nos idos de 2011, fui categórica: entrei em uma unidade do Soho nos Jardins e transformei o cabelão em um long bob assimétrico moderninho. Ao mesmo tempo que senti uma culpa gigantesca atrelada a esse movimento (minha mãe até chorou!), senti também uma leveza e liberdade. Naquele momento pareceu que, enfim, eu era verdadeiramente eu

O corte de cabelo que havia se tornado hit por causa de musas como Olivia Palermo e Alexa Chung — referência máxima de estilo e bom gosto naquela época — acabou me acompanhando por muito tempo. Até que em um novembro qualquer, enquanto jantava no restaurante Chou com a minha melhor amiga, Giovana, começamos a falar sobre quem queríamos ser dali em diante. A imagem que usei para aquela projeção estética foi de Maria, a artista lésbica vivida por Sonia Braga em Sex and the City: roupas lânguidas e um cabelo natural que ultrapassa a cintura.

Lá fui eu cultivar as madeixas para mais de cinco anos. O objetivo foi atingido rapidamente. E, indo na contramão da minha personalidade essencialmente camaleônica, mantive esse visual por tempo suficiente para ser comparada à Maria Bethânia. Por causa dele, aliás, fiz algumas descobertas: durante uma viagem ao Rio de Janeiro no ano passado, Marina, quem considero ser uma das minhas amigas mais inteligentes, me disse sobre a correlação que existe entre cortes de cabelo e personalidades que assumimos de tempos em tempos. Os fios longuíssimos querem dizer ao mundo que, naquele momento, você está olhando para você mesma, fazendo revisões, repensando e, por isso, está mais reclusa também. É sabido também que há uma ligação entre cortes radicais de cabelo e términos de relacionamento — quem nunca? 

E, então, tudo o que eu disse aí em cima gira em torno de uma reflexão: quando a gente muda por dentro, é preciso mudar por fora como uma forma de anúncio, renascimento ou luto?

No último sábado cortei um palmo de cabelo e senti medo de ver no espelho a imagem da menina que acabava de chegar na cidade grande para estudar. Ledo engano. Em seu lugar, encontrei uma nova pessoa, mais fresca, livre, exposta. Não tive nenhum rompimento de relacionamentos amorosos recentemente, mas, sem dúvida estou mais disponível ao mundo que há um ano. Acho que, no final das contas, mudanças drásticas relacionadas ao visual — especialmente aos cabelos — têm a ver, sim, com despedidas. Mas de nós mesmas, de quem costumávamos ser, de traços de personalidade, traumas, dores e até trivialidades que resolvemos, enfim, deixar para trás. 

Dito isso, prometo que nunca mais meu cabelo passa do ossinho da nuca – até a próxima vontade de ser outra pessoa, claro. 

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