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27/09/2018 | Tissyana Guimarães

Precisamos falar sobre Setembro Amarelo, antes que ele acabe

História


A psicóloga e mente pensante Tissyana Guimarães, que já passou por empresas como a agência de pesquisas Box 1824, hoje comanda seu próprio consultório na @acasaconvida e agora tem voz mensalmente aqui. Fique agora com as palavras dela…

Sei que já estamos no final do mês, mas ainda vale um último olhar para o assunto que foi destacado durante os últimos dias, o suicídio, que é motivo de campanha em setembro. Quando a gente reflete sobre este fenômeno, é realmente muito esquisito o fato de humanos acabarem com a própria vida deliberadamente. Nós, que somos tidos como “máquinas de sobrevivência” - há registros de pessoas que ficam 7 dias sem água, 10 dias sem comida e mesmo assim não morrem. Pessoas que vivem em ambientes de temperaturas a -40 graus, ou a 56ºC. Pessoas que vivem até os 123 anos… 

Além disso, em tom dominante, estamos permeados pelo discurso da sobrevivência. Todo os dias somos bombardeados por fotos de bichinhos felizes e frases motivacionais, que promovem a superação e a felicidade. Mesmo assim, cresce - principalmente entre jovens de 12 a 19 anos - o suicídio. Não caberia aqui discutir todas as causas possíveis dessa questão complexa, mas vale falar e legitimar todo o sofrimento envolvido neste ato.

A angústia de quem se suicida é tão avassaladora que, para nós que continuamos vivos, pode ser muito difícil se aproximar. Mas ela transborda, afeta todos ao redor, afinal, a pessoa que se suicida está rodeada por outros. É por conta disso que gostaria de levar nossa atenção para um aspecto que é pouco discutido, o que muitos estudiosos e profissionais da área têm chamado de pósvenção. Diferente da prevenção, ele diz respeito ao que acontece aos familiares da pessoa que se suicida, além da própria pessoa que tentou o suicídio e não foi a óbito. O que acontece depois dessa linha ter sido cruzada?


Photo by Noah Buscher on Unsplash

Entendo que a prevenção é necessária, é um dos principais aspectos a se abordar no enfrentamento do suicídio. Porém, não se pode esquecer destes que sofrem, ainda mais neste mês em que se destaca os sinais a serem reparados, e apenas o que se deve fazer antes. E depois? E agora?

Este foi um dos assuntos destacados pela professora Maria J. Kovács, professora do Depto. de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP. Ela participou de um evento promovido este mês pelo coletivo de psicólogos que faço parte chamado Oré Coletivo Solidário. Além dela, estiveram presentes o Tino Perez do CVV comunidade, além de estudantes, profissionais e qualquer pessoa interessada para uma reunião aberta sobre suicídio.

 Um dos aspectos mais graves que conversamos ali foi a crescente escolha pelo suicídio entre os jovens. Hoje já temos diversos dados mostrando isso, mas também observamos no consultório, e vivemos em nossas famílias, entre amigos, conhecidos, nas escolas, na mídia… No grupo, refletimos como o suicídio envolve uma impulsividade, apesar de existir um sofrimento contínuo e profundo. Muitas vezes pode existir um planejamento, mas a execução do ato é, geralmente, uma resposta rápida. Para Maria Julia, "o suicídio parece que passa a ser a primeira opção e não mais a última alternativa para estes jovens”.

Jovens são aqueles que vão alcançando consciência e se deparam com uma sociedade. O que se encontra hoje é um ambiente de pressão, altas cobranças e poucas oportunidades - existem hipóteses do aumento de suicídios conforme o aumento do desemprego. Mas, também sabemos que países tidos como “desenvolvidos" apresentam altos índices. 

Uma questão importante é que vivemos num mundo totalmente conectado, mas que de fato conversa pouco. Temos acesso a milhões de pessoas a qualquer momento e, mesmo assim, nos sentimos sós. Existe uma ilusão de comunicação, já que não temos espaços legítimos de fala e troca. Ainda mais sobre coisas tão complexas e misteriosas quanto nosso sentimentos, onde aprendemos a lidar com eles?


Photo by Jon Tyson on Unsplash

Hipotetizando sobre esses fatores, ficou clara na nossa discussão que o principal caminho para lidar com o suicídio - seja prevenção, pósvenção - é o diálogo. Criar espaços de discussão, abrir momentos de conversa são essenciais. Foram citadas escolas que possuem matérias que abordam esse assunto, organizações de universitários que promovem debates e atendimentos, e até séries e filmes que provocam a reflexão. Sempre existem ressalvas quanto ao cuidado de um assunto tão delicado, mas me parecem genuínas estas tentativas de reviver a prática de conversar e fazer algo junto. Inclusive não apenas em espaços periféricos, mas sim no meio da universidade, da escola, da família.

Existem iniciativas poderosas na promoção do diálogo desta temática, uma delas são os grupos de apoio ao suicídio e rodas de conversa do CVV. São grupos abertos e gratuitos, em diversas regiões da cidade. Além disso, existem os canais de contato do CVV.

Para quem busca uma conversa profissional em psicoterapia, a maioria das universidades que possuem a graduação em psicologia possuem clínicas-escola com atendimentos gratuitos, além de tantas outras organizações de psicólogos particulares. Na saúde pública, os postos de saúde (UBS) possuem algumas modalidades de atendimento e você pode se informar na unidade mais próxima da sua casa. Além disso, existem os Caps (Centros de apoio psicossocial) que são um serviços de porta aberta, ou seja, é só chegar e passar por um acolhimento com os profissionais - confira a lista de Caps aqui. Estas instituições são para casos mais graves, e que necessitem também de apoio psiquiátrico. 

Falar é o norte, mas como chegar lá existem inúmeras maneiras. Nós possuímos enormes maneiras de nos encontrar, conectar e conversar. Seja online ou offline, seja entre os mais próximos ou desconhecidos, seja através do trabalho, da espiritualidade ou da educação. O que acredito é que a fala tem o poder de substituir o ato, é o que chamamos de simbolizar a dor. Eu experimento o impacto disso no consultório, presencio pessoas que passam a transformar em palavras essa dor sem nome e, mesmo que em tentativas frustradas de explicação, conseguem aliviar algo que não precisa explodir em ato. 

Para saber mais:

Assista Elena, um documentário que trata da posvenção a partir do olhar de uma irmã.

Leia o artigo de Posvenção por Maria Julia Kovacs.

Veja as ilustrações de Oi Aure, que fez uma série com abordagens lúdicas ao suicídio para debater o tema.

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