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28/07/2020 | Juliana Cunha

Vale abandonar o livro? Perfis literários debatem controvérsias da leitura

Tudo Lifestyle História

Outro dia me peguei numa dúvida: amei o livro Normal People, de Sally Rooney e, lançada a série, não sabia se devia vê-la ou não. Isso porque, caso não me identificasse com as escolhas de elenco e demais adaptações do roteiro, não queria ter para sempre a imagem que outras pessoas criaram, já que a que eu criei me captou 100%.

Pensando sobre isso, chamei oito perfis literários — Rodrigo Valente, do @objetolivro; Dani Arrais, do @donttouchmymoleskine; Yuri Borges (@todas_as_paginas); Kanucha Barbosa (@projetosofia); Pedro Pacífico (@book.ster), Stephanni Marques (@umlivrotododia); Tati Frogel (@readandthink_2018); e Patricia Ditolvo (@criticasinstantaneas) — para debatermos dez questões que podem nos deixar em dúvida durante leituras. 

Pesquisar a história antes de ler ou começar no escuro?

“Às vezes, eu mergulho no escuro, mas em geral tenho alguma ideia da história, ou já conheço o autor. Além disso, muitas das minhas leituras vêm de indicações, e quem indica costuma dar uma ideia do que é o livro.” (Patricia Ditolvo)

“Odeio spoilers! Só faço pesquisas quando estou lendo algum livro em que o pano de fundo seja histórico e que eu sinta que precise de mais conhecimento sobre a temática durante a leitura!” (Tatiana Frogel)

“Depende! Se é um livro clássico, por exemplo, acho que vale muito a pena pesquisar sobre a história antes. Para livros menos densos, acho legal não ler nada antes de vez em quando! Uma amiga querida me indicou o Pessoas Normais, da Sally Rooney, recentemente. Como eu sei que o gosto dela pra livros é muito bom, li sem pesquisar nada e amei a experiência!” (Kanucha Barbosa)

Quanto tempo insistir em uma leitura antes de abandoná-la?

“Se você passou das 50 páginas e não curtiu, tenta dar uma pesquisada, ouvir outras opiniões, e se você ver que não vai melhorar, coloca de lado.” (Pedro Pacífico)

“Vou até umas 40 ou 50 páginas, e sempre lembro de Grande sertão: veredas, que vai difícil, truncado (e belíssimo) até quase a página 100, e vale cada gota de suor.” (Patricia Ditolvo)

“Tenta ler pelo menos umas 30, 40 páginas. Às vezes, a gente está tão acostumada com o fluxo rápido e incessante da internet que, quando pegamos um livro, temos dificuldade de engrenar na leitura.” (Dani Arrais)

“O tempo suficiente para você não odiar o autor. Agora estou lendo novamente um livro que tentei outras três vezes, há 18 anos. Peguei pela quarta vez o Mrs. Dalloway, clássico da Virginia Woolf. Se eu tivesse criado uma antipatia da autora, não teria conseguido pegar a obra novamente. Agora estou adorando! É um livro tido como difícil e a leitura está fluindo. Foi tudo uma questão do contexto e da idade.” (Rodrigo Valente)

Ler dois livros ao mesmo tempo é frutífero?

“Costumo achar mais fácil se são duas leituras bem diferentes, como uma ficção e uma teoria, mas tem também de um livro puxar o outro, e podem surgir conversas bem legais entre eles.” (Patricia Ditolvo)

“Quando eu era mais nova e tinha mais tempo para me dedicar a leitura, tinha este costume de ler dois livros juntos. Hoje em dia, com o tempo mais escasso, acredito que é mais produtivo ler apenas um e dar a devida atenção a ele.” (Stephanni Marques)

“Quando leio dois ou três livros simultaneamente, geralmente sou motivado pela falta de concentração que estou sentindo em determinado momento. Então, alternar uma leitura mais fluida e outra mais difícil — ou então um livro teórico com outro de ficção — traz uma variedade de leitura que ajuda a superar a falta de concentração ou o cansaço de uma leitura difícil de um único livro.” (Yuri Borges)

“Sim, minha cabeceira tá sempre cheia. É como se fossem abas abertas. Se começo algumas leituras ao mesmo tempo, aumento as chances de estar sempre acompanhada por um livro bom.” (Dani Arrais) 

“Para mim, funciona pouco. Em 95% das vezes, leio só um livro por vez.” (Rodrigo Valente)

Fazer anotações nos livros é válido?

“Sim, totalmente, acho que o livro está lá para a gente absorver. Acho legal a gente conseguir interagir mais com o livro e se sentir à vontade para deixar comentários e impressões.” (Pedro Pacífico)

“Ouvi o escritor português Gonçalo M. Tavares dizer uma vez “leiam armados!” Para mim, estar armada de um lápis é tão importante quanto meus óculos na hora de ler. É como eu vou registrando meu percurso de leitura, as coisas que me saltam aos olhos, relações às vezes completamente absurdas. Depois, fica tão pessoal que eu fico com vergonha de emprestar meus livros anotados pros outros.” (Patricia Ditolvo)

“Eu admiro muito quem faz isso! Já tentei ler com um lápis na mão, grifar partes, anotar, mas simplesmente não vai. O máximo que faço é tirar foto de alguma passagem que me marcou muito.” (Stephanni Marques)

“Isso, para mim, acaba funcionando como uma espécie de fichamento, o que me ajuda depois, quando quero me lembrar de um trecho, seja para escrever uma resenha ou simplesmente rememorar a história por um interesse qualquer.” (Yuri Borges)

“Quase não consigo ler se não estiver com um lápis junto. P-r-e-c-i-s-o grifar. É como se absorvesse melhor a leitura quando faço isso. Gosto tanto de grifar uma frase muito bem escrita quanto uma informação que pra mim é nova. Adoro quando um autor vai citando referências que posso pesquisar depois da leitura.” (Dani Arrais)

Ver o filme baseado no livro acrescenta à experiêcia de leitura?

“Sempre gosto de ler o livro antes de ver o filme, porque se faço ao contrário, as personagens na leitura acabam tendo as vozes e as caras dos atores do filme. Gosto de construir minhas próprias imagens. Depois de lido, é bem legal ver como aquele livro se mostrou pra outra pessoa.”  (Patricia Ditolvo)

“Acrescenta! Eu adoro quando um livro que eu amo é adaptado para o cinema ou série, porque aí você materializa paisagens, pessoas, situações que antes estavam na sua imaginação. Algumas vezes, pode até ser frustrante, mas quando o filme acerta, é viver o livro mais uma vez!” (Kanucha Barbosa)

“Não tenho problemas com isso. Li A Amiga Genial, da Elena Ferrante, em 2017. Em 2018 estreou a série de TV e eu ainda não tinha pegado para ler o segundo livro da tetralogia. Vi a temporada na HBO e foi incrível. A partir daí voltei aos outros três livros e 'escalei' os mesmos atores do seriado para a minha leitura.” (Rodrigo Valente)

Pular partes chatas para adiantar a leitura: pode?

“Putz, não só pode como às vezes precisa. A verdade é que na hora de ler pode tudo. Eu só procuro ver por que eu não gostei. É muito descritivo há 237 páginas? É confuso? Entender por que eu acho um trecho chato me ajuda a me entender como leitora.” (Patricia Ditolvo)

“Eu não faço isso porque se chego a esse ponto é porque não estou gostando do livro, então já abandono logo!” (Tatiana Frogel)

“Pode, mas confesso que quando faço isso sinto um pouco de vergonha, parece que estou burlando o sistema rs!” (Stephanni Marques)

“Não tenho esse costume. Se a parte está chata, tento dar uma pausa e voltar depois. Sempre funciona. Se não funciona, abandono.” (Kanucha Barbosa)

“Não acho legal porque acaba sendo uma leitura um tanto precária. A obra de ficção só se realiza inteiramente com a participação do leitor, ou seja, com a leitura.” (Yuri Borges)

Quais critérios usar para reler um livro?

“Livros que são mais densos, e que você acaba deixando de captar ou absorver muita coisa na primeira leitura. Mas tem também livros preferidos que a gente quer reler porque numa segunda leitura a gente consegue pegar algumas partes que não tinha pego, ou curtir mais porque sabe o que vai acontecer, prestar mais atenção na escrita, na concepção dos personagens.” (Pedro Pacífico)

“Eu releio livros principalmente por duas razões: ou eu acho que tem muita coisa ali que eu não consegui sacar, ou eu gostei demais e ele ficou fazendo barulho em mim.” (Patricia Ditolvo)

“Acredito que o contexto da sua vida muda muito a experiência da leitura. Tempos atrás, reli Capitães de Areia, do Jorge Amado, e nem lembrava da história, que li no ensino médio para uma prova de literatura. Ainda não reli Machado de Assis, mas está nos meus planos. Deve ser bem mais legal ler agora!” (Kanucha Barbosa)

“A qualidade do livro e o nosso próprio amadurecimento como leitor. Às vezes percebemos que fizemos a leitura de uma obra quando não estávamos preparados, seja porque éramos muitos jovens, seja porque, naquele momento da vida, não estávamos muito interessados naquele autor, ou no que a obra tinha a dizer. Mas chega um dia em que o interesse é renovado por algum motivo e percebemos que uma releitura vai nos fazer apreender, com outros olhos, os sentidos e o gosto por aquela história.” (Yuri Borges)

Quais critérios usar para retomar um livro abandonado?

“Geralmente busco entender as razões pela qual decidi abandoná-lo. Se foi porque achei mal escrito, provavelmente não irei retomá-lo. Agora se foi porque na época estava em busca de algo diferente ou não estava preparada psicologicamente para ele, com certeza rola uma segunda chance!” (Stephanni Marques)

“Acho que a pessoa deve se perguntar o real motivo insistir naquele livro. Só por que uma amiga disse que é bom? Ou por que muitos estão postando sobre ele no Insta? Eu mesma abandonei mais de uma dezena de livros nesses tempos de pandemia, não necessariamente por serem ruins, mas porque quando eu colocava a cabeça no travesseiro para ler, só queria jogar Candy Crush e esquecer do mundo por alguns minutos.” (Kanucha Barbosa)

Livro físico ou digital: qual o melhor?

“Não adianta, pra mim nada se compara a sentir o livro correndo na mão, quase como uma ampulheta.” (Patricia Ditolvo)

O livro físico possibilita experiências que para mim são valiosíssimas e constituem um ritual: sentir o cheiro das páginas, folheá-las e escrever meu nome, local e data de compra na primeira página. Muitas vezes acabo optando pelo virtual em função de espaço e também muitas vezes pela rapidez — é só clicar e em menos de um minuto você já está com um livro novinho pra ler! Os dois têm suas vantagens, mas o charme e encanto do livro físico são insubstituíveis!” (Stephanni Marques)

“Hoje em dia, leio quase todos os livros pelo Kindle. Sou mãe de um bebê de um ano e o Kindle foi muito prático na época da amamentação, por exemplo. É leve, não cansa a vista e me permite ter acesso a uma infinita variedade de histórias.” (Kanucha Barbosa)

“O livro físico, sempre. O suporte influencia na maneira como a recepção a uma obra é feita. Para não entrar em maiores detalhes ou em discussões da área de Comunicação, eu diria apenas que a proximidade e intimidade que temos com o livro físico é maior do que a que temos com sua versão digital.” (Yuri Borges)

“Uso Kindle quando quero ler algum título que ainda não saiu por aqui. Ou quando tem algum livro que foi feito só para aquele formato. Tem uma música do Caetano Veloso que fala de amor aos livros, dizendo que podemos amá-los do amor táctil. É isso, o prazer de ter um livro nos acompanhando em qualquer lugar (atualmente qualquer lugar da casa, claro), o cheiro de um livro novinho, a delícia que é grifar cada trecho, a sensação maravilhosa de terminar... Sou fã do papel. E acho que as editoras estão caprichando muito nos projetos gráficos. Livro vira quase objeto de desejo também, né?” (Dani Arrais) 

Dá para parar de ler no meio de um capítulo ou melhor esperar até finalizá-lo?

“Dá sim...muitas vezes os capítulos são longuíssimos e o que eu faço é tentar parar em alguma parte que se assemelhe a um encerramento.” (Stephanni Marques)

“Super dá! Acho que o importante é cultivar o hábito da leitura, mesmo lendo poucas páginas por dia (e tudo bem não ler todo dia). Se o seu ritmo é lento, não tem problema, lembre-se sempre que não é uma competição. Quando a gente vira adulto, a vida vai atropelando os momentos de calmaria e prazer, então ficamos com mais preguiça de ler por ser uma atividade que exige mais concentração e esforço. Ler é maravilhoso, te coloca em contato com outras culturas, outras formas de pensar, te faz viajar sem sair do lugar, estimula sua imaginação e até te traz uma relação melhor com as palavras.” (Kanucha Barbosa)

“Acho que quanto menos a gente se cobra, mais a leitura flui. Eu sempre quis ‘ler mais’, esse conceito quase abstrato. E passei a ler mais quando deixei de seguir regras, quando tirei o ‘tem que’ da vida. Tem dias em que não leio nada, em outros sou capaz de devorar um livro inteiro. Tem semanas em que todo dia leio um pouco, em outras já não consigo, aí aproveito o fim de semana pra me reconectar com alguma leitura. Vai seguindo seu fluxo, sabe? Se você tem vontade de adentrar mais nesse universo tão múltiplo e encantador, só começa.” (Dani Arrais)

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